Viver a humanidade, experimentar o bem.


por Edgard Leite


Em 1955, Jacques Maritain (1882-1973) deu um curso na Universidade de Notre Dame, em Indiana, Estados Unidos.


O material de suas aulas foi, posteriormente, publicado, sob o título de Sobre a Filosofia da História, On the Philosophy of History.


Nesse livro, Maritain apresentou interessantes observações sobre a natureza da História.


Inicialmente, defendeu que a crítica que Santo Agostinho (354-430) fez ao maniqueísmo continuava lúcida, e verdadeira.


Acreditavam os antigos maniqueus que o universo, e a alma, eram cenários de uma luta entre o bem e o mal, e que esta deveria terminar com a extirpação definitiva do mal.


De fato, a crença de que os homens deveriam ser absolutamente bons era constante em meados do século XX. Como o fora na época de Agostinho, quando o maniqueísmo era religião organizada. Portanto, para Maritain, o tema ainda tinha grande atualidade.


Tal perspectiva maniqueísta, como anotou Maritain, introduziu grandes deformações, não apenas na percepção da vida, mas também na leitura que pode ser feita sobre os acontecimentos passados.


A tese de que o sentido da história era a a necessária “extirpação do mal” reescreveu páginas e páginas do passado, tornando-o um cenário de conflito entre lados inconciliáveis. Tal visão da história, no século XX, especialmente, fundamentou crimes políticos em larga escala e legitimou genocídios diversos.


Na verdade, argumentou Maritain, “o bem não é separado do mal, na história humana”. “Eles crescem juntos”. Os seres humanos são, igualmente, bons e maus. “Nada é totalmente ruim, ou totalmente bom”.


É certo que os atos humanos podem dar vida à sociedade. E podem, também, degradá-la. E que há momentos em que os movimentos para o bem parecem dominar, e outros em que o mal se generaliza em todas as dimensões existenciais.


E é igualmente correto que a justiça e a retidão, segundo Maritain, tendem “elas mesmas à preservação das sociedades humanas”, e que a “injustiça e o mal” servem à sua destruição.


O que quer dizer que existe, sim, o bem e o mal.


Mas nada “é totalmente ruim ou totalmente bom”, porque as ações emanadas dos seres humanos contém, todas, uma tensão permanente entre as inclinações materiais e perversas do ser e sua simultânea tendência em realizar a humanidade e o Espírito.


Entender o ser humano, e seus momentos na história, como sendo apenas bons, ou maus, ou exclusivamente certos, ou errados, nega ao ser sua riqueza existencial profunda, sua grandeza espiritual.


Principalmente aquela que, no interior da complexa consciência humana, o leva a escolher. Quer entre atos imbuídos de moralidade e ética quer por ações desprovidas de qualquer sentimento moral.


É provável que a ideia que fundamenta tal perspectiva maniqueísta seja um fruto da negação, das pessoas, em se verem como entes complexos, paradoxais.


O maniqueísmo rejeita a coexistência interna dos elementos mais íntimos que tornam um humano, humano: aqueles que nos aproximam das coisas mais basais do mundo e aqueles que nos elevam aos valores espirituais mais abstratos


Nega-se a alquimia pela qual o bem pode, em nós mesmos, sobrepor-se paulatinamente ao mal persistente. Tanto na vida quanto na história.


O que seria o ser humano sem esse seu contínuo paradoxo? Certamente não humano.


Por isso a tendência em ver a história com as lentes do maniqueísmo não é história útil, pois nada diz sobre o ser. Nada acrescenta ao entendimento das ações humanas. Tão paradoxais em si mesmas. E reduz a percepção do humano a uma visão ilusória daquilo que ele realmente é.


Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008) no segundo volume de seu Arquipélago Gulag, sustentou que “a linha separando o bem e o mal passa não através de Estados, não entre classes, não entre partidos políticos - mas através de cada coração humano - e através de todos os corações humanos”.


“Mesmo em corações tomados pelo mal”, continua Solzhenitsyn, “uma pequena ponta de bem é retida. E mesmo no melhor de todos os corações, lá permanece um oculto recanto de mal”.


O que significa conceber uma história na qual diferentes nações, classes e pessoas podem ser consideradas como exclusivamente boas ou más?


Provavelmente exteriorizar uma profunda incompreensão sobre o que somos, no presente, e sobre como agimos na vida. Pois sempre o fazemos com intenções ambíguas e paradoxais.


É claro que tudo serve, como afirma Maritain, “para o progresso do bem”. Tudo. Porque todas ações humanas podem nos apontar o mal contido nos atos da consciência. E nos mostram a necessidade das ações que engrandeçam os maiores e mais essenciais valores do espírito.


Mas se a história não é a narrativa da luta pela extirpação do mal, o que é?

“A história”, afirma Maritain, “não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser observado”.


Que mistério?


O mistério das sinuosas e complexas escolhas que os homens, individual e coletivamente, fazem. O mistério do seu processo tão caótico quanto ordenado. O mistério de seu destino e das dimensões complexas e extraordinárias de seu rumo no tempo.


Para Maritain, o historiador deveria ser um espírito tomado de humildade. Que lida com uma realidade objetiva na qual pondera sobre o mal introduzido, no mundo, pelos homens.

Mas que lida também com uma outra realidade, que diz respeito às propostas misteriosas de Deus. Ou, podemos dizer (para não ferir consciências sensíveis à ideia de Deus), do extraordinário, do imprevisível.


Por isso, observa Maritain que “o valor, eu digo a verdade, do trabalho histórico, está em proporção à riqueza humana do historiador”.


É o historiador, na sua humildade, sensibilidade e capacidade de entender, de forma intensa e real, a si próprio e sua relação com as coisas, e com o mundo, que pode aproximar-se desse mistério do passado com pertinência.


Não para exterminar o Mal, mas para viver a humanidade. E experimentar o caminho e os descaminhos do bem.


(Edgard Leite é Diretor do Instituto Realitas)

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