Passado, neblina.



A natureza do tempo é misteriosa. Por isso são difíceis as nossas tentativas de reconstruir o passado.


Vivemos o presente cercado de vestígios de coisas passadas. Nós mesmos, pelo menos naquilo, em nós, que se transforma, somos uma dessas coisas.


A reconstrução dos acontecimentos que nos conduziram a este momento se dá em parte pela memória, que é imprecisa: seletiva, interessada, fantasiosa e falha.


De outra parte, pelos documentos e vestígios materiais. Estes, embora concretos, são inumeráveis e vagos no que traduzem. Precisam ser encontrados, identificados, analisados, conectados uns com os outros. E perdem sua objetividade por conta de nossas paixões e escolhas.


O passado é neblina. Apenas no presente há alguma realidade, ainda que transitória. Pois logo o instante se torna névoa.


No entanto, por necessidades muitas, nos esforçamos em construir teorias para explicar como este presente se formou.


E nas universidades aprendemos algumas formas de faze-lo.


Todas elas traduzem escolhas, interesses, que estão associados às supostas necessidades do presente.


Supostas porque o que nos move no agora são, muitas vezes, impressões enevoadas que nos vem diretamente desse mundo nebuloso, que é o passado. Ou de leituras imprecisas dele.


Até o início dos tempos modernos, no entanto, havia outro olhar diante da grandeza misteriosa do processo de transformação do passado em presente. E sobre o que isso poderia nos dizer sobre a vida.


Tal abordagem expressava prudência diante do presente. Aceitação tranquila de sua realidade. E, principalmente, de sua transitoriedade.


O foco, normalmente, não estava na mudança contínua das coisas, mas na busca de uma linha de eternidade subjacente. Não se concentrava na neblina do passado, mas sim numa realidade maior que não se dissolvia, se mantinha.


Esta tornava as coisas reconhecíveis, tanto no instante quanto na neblina. E apontava para algo que estava além da memória e dos vestígios.


A tradição dizia algo sobre isso.


Nos livros sapienciais bíblicos, especialmente no Eclesiastes e no livro dos Provérbios, defendia-se que as coisas funcionavam a partir de movimentos eternos e recorrentes.

Nada era novo. As grandes questões centrais, que atormentam os seres, eram vividas permanentemente.


Os seres humanos estavam inseridos em movimentos maiores, cuja realidade atendia a planos invisíveis. Planos que convidavam ou direcionavam os humanos ao crescimento em valores e à redenção.


O resto era neblina.


O passado era entendido como uma sucessão de tentativas permanentes do seres humanos em fugir dessa realidade maior, que é a realidade última.


Buscavam sempre construir um universo nebuloso de desejos e vivências do transitório. Que se enfumaçavam sempre, gerando dores e frustrações.


Mas do passado também vinha o permanente sentimento de que só através desse sentido maior das coisas alcançavam-se dimensões profundas. A natureza das coisas. A claridade. O sentimento de encontro com Deus e com a Eternidade.


Assim também se vivia no presente, e assim também seria no futuro.


No meio desses acontecimentos repetitivos percebia-se o mistério mais profundo dos planos de Deus para os seres humanos.


“Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.

Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.

O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos (Ec 1:4-6)”


E ainda:


“O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.


Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.” (Ec 1:9,10)


Era o mistério que calou Jó, quando este se considerou incapaz de ir além do conhecido. O enigma do existir ou de Deus, Ele mesmo.


Era esse olhar que dissipava a névoa.


Na modernidade, no entanto, passou-se a acreditar que na neblina há sentido. E mais: que não há nada além dela.


E que não é neblina, mas sim realidade: apenas as vontades humanas e seus desejos existem. Nada há de eterno ou de subjacente ao mundo no qual os homens se movimentam.


Essa aguda ausência de sentidos eternos é, assim, preenchida por sentidos transitórios: o que inspira a história é o poder, o que movimenta os homens são desejos materiais (dinheiro, direitos), o que os realiza é o livre exercício de suas paixões.


As formas que aprendemos nas universidades, hoje, portanto, para entender o passado, são centradas na organização dessa neblina, a partir de elementos de névoa. Estruturam-se sobre as experiências do transitório.


Diriam os antigos que é mais uma tentativa de afastar-se de experiências eternas, de essências, da repetição.


Podem dizer os vivos que tais formas apenas lidam com fantasias sobre a possibilidade de viver-se plenamente num mundo de contínuas desagregações.


Não consideram o extraordinário, apenas o ignoram. Tentam encontrar no mutável alguma verdade absoluta, um sentido inequívoco. Desconsideram o absoluto, e acreditam que não há nada repetível, natural ou basal.


Assim se atormentam diante do surpreendente, se espantam quando são colocados diante da pluralidade de percepções e ficam horrorizados quando tudo se repete.


E, principalmente, recusam o poder subjetivo e estruturante dos valores. O papel dos mitos e das crenças. E o movimento humano para avançar neles no sentido da redenção, na busca do Supremo Bem.


De fato não há nada de novo nisso: “nada há de novo debaixo do sol”. E também nada há de novo em reconhecer e buscar a grandeza da eternidade.


Em ir além da neblina, ao entender o passado. Em buscar a Verdade, que a dissolve.


(Edgard Leite é Diretor do Instituto Realitas) @edgardleiteneto

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