Eça de Queiroz e "Os Maias"

por Edgard Leite (Diretor do Instituto Realitas)




A língua portuguesa tem muitas particularidades. Olavo Bilac a entendeu como “inculta e bela”, e dotada do "trom e o silvo da procela, e o arrolo da saudade e da ternura!”.


É, de fato, uma língua antiga e nobre, complexa e difícil no seu escrever.


Fernando Pessoa disse que "minha pátria é a língua portuguesa”. Querendo dizer que onde se fala o português está presente, algo. Uma identidade própria.


A língua portuguesa produziu muitos geniais escritores.


Le-los é importante não apenas para ir entendendo essa língua extraordinária. Mas também para compreender a particularidade que ela carrega, esse espírito do qual é portadora.


Ler Camões, ler Antonio Vieira, são atos de muita relevância e devem, me parece, estar imbuídos de muita reverência.


O falar português do Brasil, no seu caráter mestiço, precisa da consciência da presença desses fundadores, para poder avançar em sua aventura histórica. Nesses autores conhecemos a potencialidade original da língua. Que é infinita.


Ainda mais quando se acrescenta a ela tantas outras presenças, que somam, aqui no Brasil, lentamente, aspectos diversos ao idioma. Abrindo vastos horizontes de expressão.

Ler Eça de Queiroz é uma dessas experiências centrais da língua portuguesa.


Os Maias é, provavelmente, o mais importante dos seus romances. Publicado em 1888, foi sempre reconhecido pelo total domínio da estrutura narrativa que o autor ali demonstra.


Ler é importante não apenas para entender a língua e conhece-la, nas suas múltiplas possibilidades.


Mas, também, para aprofundar a riqueza interior do leitor, tornar visível esse permanente enigma da descrição do mundo pela arte da escrita. Que sempre, desde que há escrita, impressionou e fascinou os seres humanos.


Enigma que está presente em toda reconstrução do mundo contida em qualquer ato de escrever.


Assim é com esse notável romance.


Os Maias trata da história de três gerações da família Maia, e tem como cenário principal a casa de Lisboa que pertencia à família. Chamada de “Ramalhete”, por conta de um painel florido que estava na sua fachada.


O livro começa com a primeira geração da família Maia. Com o casamento de Afonso da Maia e Maria Eduarda Runa. Dessa união nasceu Pedro da Maia.


Este casou-se, de uma forma um tanto precipitada, ou imprudente, na verdade, com uma certa Maria Monforte, filha de um traficante de escravos. Por esse fato eram malvistos na sociedade lisboeta.


Pedro não considerava isso relevante, mas certamente essa realidade fazia parte de um quadro negativo de referências, que é exposto de forma misteriosa.


Desse casamento nasceram dois filhos: Carlos Eduardo e Maria Eduarda.


Maria Monforte se revelou uma mulher instável e insegura. Apaixonou-se por um italiano que residia, por uns tempos, em sua casa, por gentileza de seu marido, e fugiu com ele, e de Portugal, levando consigo sua filha.


Atormentado com a traição, o descaso, a falta de amor e de respeito, Pedro vai para a casa do pai, com o filho que ela deixou, e lá comete suicídio. O filho é criado pelo avô.


Anos depois, já formado em Coimbra, Carlos retorna à Lisboa, para viver no Ramalhete.


Como era rico, dedica-se de forma superficial à profissão de médico e passa grande parte de seu tempo em namoros irregulares, com mulheres casadas ou livres, conversas diletantes, jantares, passeios, saraus e a assistir peças de teatro. Isso o fazia com uma roda seleta de amigos, entre eles João da Ega.


Num universo de leviandades e discussões políticas e culturais descoladas da realidade, numa era de transformações, Carlos Maia se apaixona por Maria Eduarda, uma mulher livre, que tinha uma filha.
E se decide, contra todas as convenções, se casar com ela.


E, (se isso ainda pode ser considerado spoiler depois de centro e trinta anos), ao final, ele descobre que Maria Eduarda era, na verdade, sua irmã desaparecida, que todos julgavam morta.


Seu avô, amargurado, morre em grande parte por isso. E ambos Carlos e Maria Eduarda, se separaram, para nunca mais se encontrar.


Os Maias possui momentos magníficos, de emoção profunda, que revelam toda a capacidade de expressão de Eça de Queiroz.


O livro ainda hoje nos toca, principalmente ao longo do processo pelo qual Carlos Maia vai lidando com seus sentimentos, ao descobrir que a amada da sua vida era, na verdade, sua irmã.


Os Maias, romance realista, é, como todo romance de Eça, muito vívido na descrição de Portugal de seu tempo, dos ares e do espírito que por ali existiam, e da sutil integração entre sentimentos humanos e flutuações climáticas, que parecem, às vezes, fluir e pulsar num mesmo ritmo.


Como romance em língua portuguesa, e considerando que é esta a nossa língua, Os Maias nos transmite um mesmo espírito de melancolia que é próprio de nossa forma de entender o mundo, no qual a saudade e uma certa tristeza são elementos relevantes.


Muitas das páginas mais emocionantes de Os Maias são aquelas em que se trata da distância entre pessoas, seja pela morte, seja pela impossibilidade do amor.


E, de forma muito sutil, Eça também traduz o sentimento que a elite portuguesa tinha da sociedade de seu tempo: o de percebe-la como de difícil transformação, diante das exigências de modernização vindas de fora.


Tratava-se de um sentimento que, pelo menos em Portugal, tomava as mentes dos “estrangeirados”, daqueles que, desde o século XVIII, se rebelavam contra o Portugal real.


Sentimento que nós aqui no Brasil também conhecemos. Principalmente na revolta que muitos ainda manifestam diante do Brasil real.


É um livro maravilhoso.


Também nos mostra como os seres humanos, em diferentes momentos históricos, lugares e em graus diferentes de desenvolvimento tecnológico são, essencialmente, os mesmos.

Estão sempre à busca de algo que nunca conseguem encontrar neste mundo.


O pessimismo de Eça, nesse sentido, é apenas descrição de uma realidade essencial e atemporal.


E que pode, ou não, mover os homens na direção de algo maior e verdadeiro.

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