Cartola e as virtudes do Brasil

por Edgard Leite (Diretor do Instituto Realitas)

Nos anos 60 e 70 do século passado uma nova música brasileira começou a aparecer. Ela irá se denominar de Música Popular Brasileira.


Ela não escondia, na denominação “popular”, uma intenção política, ao entender-se como “do povo”.


O Partido Comunista criou, em 1962, o Centro Popular de Cultura da UNE. Popular, também. Tinha o objetivo de difundir, na sociedade, ideias revolucionárias. Daí vem a Música também dita popular.


Em princípio, a MPB utilizava os mesmos estilos da música brasileira, que já existiam.


Alguns desses estilos, como as modinhas ou os ritmos nordestinos, vinham desde o período imperial, e outros, como o choro, o samba, desde o princípio do século XX.


Mas a MPB transformava totalmente a mensagem da música brasileira. As letras eram diferentes, possuíam uma intenção clara: a transformação política das consciências.


Antes dos anos sessenta, a música brasileira era muita centrada em valores. Valores religiosos, espirituais, sentimentais.


Falava-se muito do amor, da amizade. Havia, sempre, uma reflexão sobre a saudade. Lembranças da terra brasileira, da sua origem, dos desafios que tinham construído a nacionalidade e as famílias. Falava-se das tristezas e alegrias dos relacionamentos.


Falava-se do quão pouco importante eram o dinheiro e o poder. E quão relevantes eram o amor e o ser.


A MPB, que brilhou nos “Festivais", recusou esses temas.


Por exemplo, colocou em evidência valores hispano-americanos, estranhos à nossa tradição: o culto dos ressentimentos, ódios e violências políticas.


Passaram a criticar a religião, os valores espirituais, muitas vezes com a introdução de temas orientais deformados, ou através de um ateísmo militante.


Se puseram a defender inimizades e estranhamentos entre pessoas de diferentes níveis sociais, ou posições políticas, e promoviam uma ruptura com o sentimentalismo dominante.


Nunca houve uma aproximação real entre os músicos da MPB, politizados e críticos, e aqueles grandes músicos da maravilhosa tradição musical brasileira: por exemplo Pixinguinha, Adoniran Barbosa, Cartola ou Luiz Gonzaga.


Os músicos da MPB, de diferentes maneiras, é claro, procuraram se promover a partir desses grandes artistas dos anos 50. Os procuravam e cantavam com eles, eventualmente.


Mas a verdade é que havia, nesses músicos da MPB, uma preocupação com o dinheiro e poder que antes não existia, na tradição simples, terna, amiga, saudosa, que era a marca da musicalidade nacional.


A partir dos anos 60 e 70, usando como trampolim os jornais, as TVs, os “Festivais”, as grandes gravadoras, foi montada uma máquina opressiva de difusão da música dita “popular” brasileira que rompia totalmente com o espírito sentimental anterior.


E, assim entendemos, com o espírito do povo brasileiro.


Grande parte dessa nova estrutura musical era dependente do Partido Comunista e de movimentos de esquerda e transmitia uma mensagem de cunho político, clara ou camuflada.


Nela, de fato, o “povo” era diferente dos “ricos”, o Brasil era oprimido e sofrido, as etnias eram separadas e inimizadas.


Não havia origem comum, mas apenas opressões de uns sobre outros. Amigos e amores estavam submetidos a necessidades materiais, apenas. Às posições políticas que as pessoas tinham.


Uma coisa era a galhofa de cunho erótico, ou mesmo pornográfico, cômica, que sempre existiu na canção brasileira.


Outra era a defesa ideológica de uma sexualidade que imperava sobre o sentimento, que colocava o “amor” submetido às relações sociais, à necessidade de uma revolução.


A MPB recusava o amor saudoso, o amor espiritual, o amor verdadeiro que transcendia o mundo, tão comum no espírito brasileiro que, como dizia Olavo Bilac, era moldado pela saudade.


Essa “Música Popular Brasileira" não apenas rompia, mas pretendia destruir o espírito brasileiro.


Para ela, Cuba era mais importante que o Brasil. O espanhol mais potente que o português. A dor mais significativa que o perdão. E o lirismo, tão nosso, apenas uma hipocrisia. Ou, muitas vezes, um meio para transmitir a suposta amargura de uma sociedade de desigualdades.


Agenor de Oliveira, o Cartola (1908-1990), foi um dos últimos músicos da geração anterior aos artistas da dita MPB.


Sua família vinha de Campos, no Estado do Rio de Janeiro. E seu avô era um grande cozinheiro, a tal ponto que trabalhou na cozinha do Presidente Nilo Peçanha. O primeiro Presidente que apresentava, na aparência, sua origem africana.


Cartola foi apresentado como “descoberto”, por essa geração de músicos esquerdistas.


Mas a verdade é que seu brilho próprio sempre o fizera querido. Mesmo antes da esquerda o “descobrir”. A esquerda, na verdade, tentou usá-lo, para legitimar-se.


Mas Cartola tinha total consciência das distâncias que o separavam desse novo mundo cultural. E, em pelo menos uma música, apresentou toda a diferença que existia entre as duas perspectivas musicais.


Trata-se de “Sala de Recepção”, que é, à sua maneira, uma música política. Nesta canção ele responde, de forma sutil, e gentil, à uma música de agitação social, tão violenta em sua penetração nas consciências.


O propósito de “sala de Recepção” é responder à seguinte pergunta, que lhe é colocada, claramente, por uma pessoa “politizada”:


"Habitada por gente simples e tão pobre/ Que só tem o sol que a todos cobre/ Como podes, Mangueira, cantar?”


Ou seja, é possível que alguém cante, sendo simples e pobre?


A pergunta pode parecer ridícula, mas Chico Buarque ensinava, naquela época, em uma música dedicada à formação das crianças, que "tinha um barão, espertalhão (tem ainda) que nunca trabalhava e então achava a vida linda”.


Se você trabalha não pode achar a vida linda. Então, “como podes Mangueira, cantar?”


A pergunta exige uma resposta, que Cartola dá com muita profundidade. Assim, responde que


"Pois então saiba que não desejamos mais nada/ A noite, a lua prateada/ Silenciosa, ouve as nossas canções.”


Ao invés de falar do sol “que a todos cobre”, ele fala da lua, da melancolia, da suavidade.


E diz claramente que apesar de simples e pobres, eles não desejam mais nada além da experiência poética, dos sentimentos em seu estado puro. É o espírito, a verdade humana, que eles procuram e desejam. E não as coisas vãs do mundo.


E para não haver dúvida disso, ele acrescenta:


"Tem lá no alto um cruzeiro/ Onde fazemos nossas orações/ E temos orgulho de ser os primeiros campeões”


Isto é, eles acreditam em Deus. Deus está por cima de todos, além do sol. E todos se satisfazem em serem campeões exatamente nesse campo que é história, sentimento, saudade e alegria, que é o carnaval. Isso é bom e certo. E os aproxima de Deus, na simplicidade e verdade da sensibilidade.


E sustenta:


"Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora/ E as outras escolas até choram/ Invejando a tua posição”.


Isto é, são simples, pobres, mas absolutamente felizes. Trabalham e acham a vida linda. E se consideram muito satisfeitos por serem campeões nesse universo que, naquela época, nada movia de dinheiro: o carnaval.


Estará Cartola falando apenas da Mangueira? Certamente que está também falando do Brasil, presente ali no microcosmo do morro carioca. Pois assim são os brasileiros.


E há aqui uma afirmação sobre a impossibilidade do ódio e do ressentimento instalarem-se entre nós. E dos limites da MPB. Pois nós consideramos muito a ternura, a saudade, a afetividade.


Mas, ele ainda afirma mais:


"Minha Mangueira essa sala de recepção/ Aqui se abraça inimigo/ Como se fosse irmão.”


Toda inimizade, aqui, na Mangueira, no Brasil, é transcendida. Um inimigo, se torna um irmão. Aqui ele fala do amor. Como eixo, estrutura e destino da existência. Esse Brasil de Cartola é muito superior ao Brasil da Música Popular Brasileira que então se desenvolvia


Era um Brasil norteado por valores elevados, pela supremacia dos sentimentos, de Deus, do Espírito.


Cartola nos fala daquilo que constitui as virtudes mais profundas do Brasil. Meio século de império da dita Música Popular Brasileira não sufocou nossa inclinação ao espírito, ao amor, aos bons sentimentos e à paz.


Isso tudo ressurge, subitamente. E então podemos ver e nos reconhecer na nossa identidade brasileira. Que perdura e continua apesar de toda tentativa de destruição.


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