A máquina de destruição de consciências

por Edgard Leite, Diretor do Instituto Realitas


As universidades se movimentam como máquinas de produção de conhecimento, e se tornaram imprescindíveis.


Isso foi devido, em grande parte, ao império da matemática e de sua capacidade de permitir a compreensão de vários processos existentes no mundo sensível.


Nas universidades, nos últimos séculos, se produziram avanços na Química, na Física, na Biologia, na Medicina e assim por diante.


Essas ciências, que lidam com números, e obtém resultados precisos, se tornaram eficientes em revelar verdades invisíveis e utilizá-las para transformar a vida cotidiana das pessoas.


No entanto, duas coisas devem ser anotadas, que são relevantes, e explicam muitos problemas das universidades, que hoje são evidentes.


Primeiro, esse poder da matemática, para se realizar, precisou romper com os valores que estabeleciam os limites de sua utilização.


Sempre se entendeu o poder da matemática, mas sempre este foi subordinado ao poder do espírito, que deveria nortear, tanto do ponto de vista ético quanto moral, os movimentos humanos.


Assim, o afastamento da religião do universo acadêmico permitiu que nenhuma preocupação moral objetiva pudesse ser colocada entre o cientista e a utilização da matemática.


Isso quer dizer que, ao lado de grandes transformações em coisas uteis aos homens: luz elétrica, aviões, equipamentos de radioterapia, foram também desenvolvidos, sem problemas morais práticos impeditivos, mísseis e bombas atômicas.


Segundo, isso teve um importante desdobramento nas atitudes morais dos cientistas.


O imenso poder de transformação adquirido no desenvolvimento da ciência permitiu que se acreditasse que tudo era possível. Isso dissolveu a humildade, o elemento mais importante no processo de experiência da verdade.


A vaidade tornou-se uma característica própria do cientista, o que alterou a natureza do conhecimento a ser buscado. O homem de ciência ascendeu sobre o conhecimento.


Então, que tipo de conhecimento ele busca? Certamente, algum que não o desafie ou que, apenas, o engrandeça.


Isso deformou, sobremaneira, as relações acadêmicas, cujo principal eixo aglutinador passou ser a grandeza do cientista e, apenas secundariamente, o sucesso da ciência.


O cientista passou a acreditar que era um tipo de Deus. E a ciência a representação da potência infinita humana. Quando é, unicamente, no caso que estudamos, o exercício de sua vaidade.


Assim, a grandeza da universidade desenvolveu-se na mesma proporção que sua degradação, do ponto vista do espírito. Todas as virtudes, ali, foram dissolvidas e a universidade colapsou, do ponto vista moral.


Porque nela apenas o mundo sensível tornou-se relevante. E neste, assim se entende, se esgota toda ação.


Mas o mundo sensível, sabemos, é transitoriedade, impermanência, morte e incompletude. O que significa que a universidade, na medida em que se aprofunda nele, vai se esvaziando de sentidos.


A questão é mais grave, no entanto, no campo das humanidades, onde, acima de tudo, a matemática encontra seu limite. Porque o homem não é apenas o material, mas também o espiritual. E os valores do espírito não podem ser medidos, pesados, quantificados.


E, no mundo, há arrogância, infinita prepotência e o abismo da impossibilidade de realizar tal prepotência e de alcançar o sentido da arrogância.


A tentativa de encontrar nesse mundo sensível o significado único de tudo que o ser humano faz, é colocar todos diante de uma realidade de contínua morte e desagregação.


Nesta realidade não há perdão, tranquilidade, amor, cuidado, confiança, encontro, compaixão. E essa experiência dilacera o ser.


Nesse sentido, as universidades se transformaram numa máquina de produção de conhecimento, mas também numa máquina de destruição de consciências.


E, nessa medida, passaram a ser prescindíveis, porque nocivas ao ser.

82 visualizações
Registre-se no nosso site

© 2020 by Instituto Realitas

Acompanhe-nos nas redes socias

  • Pinterest
  • parler
  • SoundCloud ícone social
  • Facebook ícone social
  • Twitter ícone social
  • LinkedIn ícone social
  • YouTube ícone social