A Independência dos Estados Unidos

por Edgard Leite (Diretor do Instituto Realitas)


Um grande vazio, que chega a ser gritante, na obra de Eric Hobsbawm sobre o mundo contemporâneo, é a ausência de uma consideração relevante sobre a Independência dos Estados Unidos da América.


A sua atitude, nesse caso, é a de estruturar uma "espiral de silêncio”, em torno do assunto. Ocultá-lo, faze-lo desaparecer do corpo de suas divagações marxistas sobre a história.


Ele o faz, em princípio, pelas mesmas razões que levam os movimentos de esquerda a silenciar os dissidentes intelectuais e levou a União Soviética a apagar dos retratos e dos livros as imagens e conteúdos de seus descontentes.


Isto é, evitar que a narrativa incorpore contradições e paradoxos que possam desafiar a teoria dominante. E mais: fazer com que a visão da história que o leitor possa ter desconsidere a existência ou relevância de um dado fenômeno.


E, principalmente, que ele tenha dúvidas sobre a real importância desse acontecimento. Ou seja, colocar mais uma peça na construção de uma visão ilusória do mundo e da vida.


Desconsiderar a Independência dos Estados Unidos? Isto é possível? Não estamos todos imersos, do Brasil à China, pelos elementos da industria e da cultura norte-americanas? Por incrível que pareça Hobsbawm acha que sim, que isso é possível.


Incialmente, a justificativa para isso, que Hobsbawm apresenta, não faz o menor sentido: a de que “a revolução americana … deixou poucos traços relevantes”.


De fato, não há, no que ele chama de “revolução americana” o volume de atrocidades descontroladas e absurdas que caracteriza a revolução francesa.


Na verdade, foi uma guerra insurrecional contra uma força estrangeira de ocupação. O primeiro dos movimentos de reação aos poderes coloniais. Só por isto, de fato, valeria mencionar sua relevância.


Mas não apenas: a independência dos Estados Unidos da América foi o primeiro movimento contemporâneo de contestação, bem sucedido, àquilo que, mais tarde, no Congresso de Viena (1815), será chamado de ”princípio de legitimidade”.


Isto é, aquele princípio que tornava o poder de um governante legítimo: ser uma autoridade derivada de uma linhagem dinástica reconhecida. Os americanos desconheceram esse princípio. Para eles, o poder é legítimo apenas quando atende a vontade do povo.


O caráter da independência dos Estados Unidos estabeleceu, portanto, um marco jurídico de crítica aos poderes constituídos através do estabelecimento de seus limites.


É difícil encontrar uma constituição hoje, no mundo, que não tenha como exemplo a constituição dos Estados Unidos. A mais estável e duradoura de todas as constituições contemporâneas.


Então dizer que “a revolução americana … deixou poucos traços relevantes” é uma mentira. Tal mentira é aceita porque a ideia de quem lê é encontrar, na história, uma certa coerência com aquilo que o pensamento marxista estabelece como verdade. Mas certamente essa afirmação não é verdadeira.


Essa afirmação foi feita, basicamente, porque a independência dos Estados Unidos estabeleceu um modelo de crítica e de ruptura.


Mas esta não passou pela destruição, pela aniquilação, pela revolução infinita, mas sim pela conjugação entre crítica e confiança, entre ruptura e conservação, entre destruição e construção, entre imaginação e realidade.


A Declaração de Independência, de 1776, deixa claro que se sustenta em valores e princípios que emergem de outra realidade, superior, e que seu objetivo não é romper para destruir valores, mas sim para garanti-los. Seu objetivo é a ruptura no sentido da conservação. Não dos poderes humanos, mas da crença em realidades maiores que aquelas dos seres humanos.


Esse caráter do movimento político de 1776 estabeleceu um outro paradigma de ruptura, que, claramente, se contrapõe à da violência iconoclasta de 1789. E, por isso, Hobsbawm mente de forma deliberada sobre este assunto. Como se mentir tivesse qualquer relevância sobre os acontecimentos da história.


Ele acredita, sem dúvida, que, mentindo, criando uma outra atitude mental na sociedade, essa verdade passará desapercebida.


E, de fato, muitos que utilizam celulares, aquecem suas comidas nos microondas, acendem suas lâmpadas ao anoitecer e navegam na internet, são capazes de concordar que “a revolução americana … deixou poucos traços relevantes”.


Mas não se dão conta de que tudo isso só foi possível não por conta de 1789 na França, mas sim por 1776 na América.


Consolidar essa existência alienada é um objetivo de Hobsbawm.


Afastar-nos não apenas da realidade, da fonte intelectual que transformou a vida cotidiana da humanidade nos últimos duzentos anos, isto é, dessa incrível criatividade do modelo americano, mas também da ideia de que existem valores que, mesmo na busca de direitos, devem ser preservados, e que são valores que se enraizam em dimensões maiores da existência.


Pode-se sim, destruir esse modelo. Porque destruir é fácil, principalmente através da mentira. Mas não se pode negar a verdade.


O modelo francês pode ter criado muitas coisas, mas o seu rastro é de aprisionamento. De imobilismo. De distância do mundo real.


O modelo americano de 1776 é permanentemente criativo, em grande parte porque preserva, na manutenção do direito de se buscar a salvação da própria alma, inscrito na primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, o direito de escolher, de decidir, de julgar, por si só, o que é verdade e o que mentira.


E estabelece, assim, o direito de escolher a verdade.


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