A imposição desigual da igualdade na União Soviética

Por Edgard Leite (Diretor do Instituto Realitas)



Os acontecimentos na Rússia, em 1917, tiveram profunda influência sobre a política do século XX. E, de alguma forma, ainda assombram a existência política do século XXI.


A tomada do poder pelo Partido Bolchevique, em novembro de 1917, representou uma rara oportunidade de se por em prática uma série de ideias e concepções que vinham do final do século XVIII.


A partir de 1917 o Partido Bolchevique passou a ter, sob seu controle, riquezas substanciais do Estado russo, o domínio sobre as imensas reservas naturais da Rússia e uma população significativa.


E tudo fez para agir isoladamente.


Após a queda do Tzar foi destruindo todos os seus opositores. Empenhando-se em eliminar toda oposição interna e externa. Assim foram dadas as condições para colocar em prática as ideias do socialismo do século XIX, especialmente as de Karl Marx.


Que ideias eram essas?


Acima de tudo, a experiência russa, a experiência soviética, foi um laboratório que serve para nós, hoje, dimensionar o que seria a construção de uma sociedade de iguais.


Essa expressão, de iguais, é um dos elementos centrais do discurso socialista- comunista revolucionário do século XIX. Emergiu como dominante a partir do desconforto causado pela Revolução Francesa, e pela ordem que dela emergiu.


Basicamente porque a Revolução Francesa propugnava pela igualdade, mas manteve e, mais, consolidou, uma sociedade de desiguais. O que em si não deveria ser surpresa, já que sempre desiguais foram as sociedades humanas.


Mas esse desconforto, em consciências que tendiam à ilusão, levou ao surgimento, em meios intelectuais, de uma crítica ampla ao sistema jurídico democrático que emergiu de 1789 e das revoluções européias do século XIX.


Esse pensamento passou a defender com muito entusiasmo a construção de uma ordem de iguais.


Na opinião de Marx, isso passaria pela crítica aos "assim chamados" direitos humanos, principalmente ao direito de propriedade. Para ele era este a principal garantia do direito do individuo de ter suas próprias ideias, independente do coletivo.


Consequentemente, era um direito que garantia a desigualdade. Na medida em que os seres humanos entendiam, por ele, que aquilo que eles pensavam e faziam era deles, por direito. Tal espírito desafiava continuamente a igualdade humana, pois cada um se julgava especial, desigual, e trabalhava para garantir tal diferença através das leis.


Em 1917 tal tese sobre a igualdade humana, a ideia de que se deveria construir uma sociedade de iguais, finalmente pode ser colocada em prática. Com toda a estrutura do poder do Estado a favor.


De fato, o que diferenciava Marx de outros pensadores de sua época, é que estes, até com mais racionalidade, acreditavam que para ser construída uma sociedade de iguais não deveria existir um Estado ou uma polícia. Todos deveriam ser absolutamente livres de qualquer tipo de coerção, ou seja, de qualquer experiência de desigualdade.


Marx, ao contrário, até acreditava que tal situação poderia ser alcançada no futuro. Mas para tal estado de igualdade ser alcançado era necessário organizar uma sociedade desigual. Isto é, deveria existir um governo que obrigasse as pessoas a serem iguais entre si. Inibindo o direito à propriedade privada. Principalmente o da propriedade da própria consciência.


Pareceu a muitos que o pensamento dele era o único viável nessa direção.


Como as pessoas poderiam ser iguais se elas eram naturalmente desiguais? Se elas naturalmente pensavam diferente e se agarravam ao seu pensamento como se fosse um próprio pensamento? Era essa uma experiência particular que atestava a desigualdade.


O que deveria ser feito, estabeleceu Marx, era obrigar as pessoas a serem iguais, através da transformação da sua natureza. E tal processo exigia uma organização institucional especifica, que Marx chamou de Ditadura do Proletariado. Ditadura.


Então não há surpresas no que diz respeito ao regime instalado na Rússia em 1917 quanto ao seu caráter autoritário, totalitário, criminoso e assassino.


Porque transformar a natureza humana significava obrigar os seres humanos a ser algo que eles naturalmente não eram. Adquirir outra natureza. E essa outra natureza só poderia ser imposta através da força.


Tal transformação também exigia o movimento de extirpar da consciência, ou da sociedade, aqueles indivíduos, ou pensamentos, que por alguma razão fossem dissidentes dessa proposta geral.


O problema das sociedades utópicas sempre foi, exatamente, este: o de se voltar contra os elementos do ser humano que são elementos dissonantes do conjunto, sejam caóticos, sensíveis, desagregadores, individualistas e egoístas ou o que for.


Mas o que ocorre é que tais elementos fazem parte da natureza da condição humana. Permitem ao ser humano ser o que é. Permitem ao ser escolher.


A questão da propriedade da própria consciência é a questão da escolha. O que pretendiam os comunistas era a ruptura com a ideia da escolha. Não havia possibilidade de haver diferenças. De escolher ser diferente. Os seres humanos tinham que ser obrigados à igualdade.


Do ponto de vista político nunca houve qualquer expectativa bolchevique diferente disso.


O que é interessante, no entanto, na experiência soviética, é que eles tiveram três gerações para realizar tal transformação.


Durante 74 anos, guerras e massacres foram aproveitados de diferentes formas para transformar a natureza humana. Mas, mesmo assim, eles não apenas não conseguiram transformar essa natureza como o regime, ao final, colapsou totalmente. Por força da desigualdade que ele mesmo consolidou, por obra das consciências que se rebelaram em sua própria defesa.


A experiência soviética foi a primeira e o modelo. A partir dela, muitas outras foram realizadas, mas todas fracassaram em construir uma sociedade de iguais.


Provavelmente, acima de tudo, porque os seres humanos são realmente desiguais. Mas, acima de tudo, não querem ser iguais. E, como a genética comprova, a desigualdade é um elemento essencial que define a condição humana. Nenhum ser humano é igual a outro, nem pode ou deve ser.

O problema não está, portanto, ao contrário do que pensavam os revolucionários do século XIX, na desigualdade.


Mas na forma como os seres humanos se relacionam com essa desigualdade.


Se com sentimento de ternura, compaixão e, principalmente, espírito e liberdade de escolha, a desigualdade é sempre superada.

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