1917 e o problema do ressentimento

por Edgard Leite (Diretor do Instituto Realitas)

O ressentimento é uma força política importante.


De fato, todos nós amargamos alguma dor, que é própria do existir num mundo de contínuas mudanças, e, consequentemente, todos temos algum tipo de contrariedade com relação ao próximo, com relação a outros, com relação ao mundo.


A capacidade da política em manipular essas nossas contrariedades, que se tornam, com frequência, ressentimentos, e transformá-las em um vetor de organização e ação é o que caracteriza em grande medida a política da esquerda, a partir do século XIX.


Tal movimento, deve ser dito, já estava presente e atuante na Revolução Francesa, mostrando sua extraordinária potência.


As nossas dores afetivas são causadas pela nossa resistência em aceitar a realidade do mundo, que é transitório e efêmero.


Elas tem origem na nossa necessidade em resolver tal problema intrínseco da realidade, negando-a. Ou acreditando na ilusão de que ser mais que o próximo ou mais que o mundo, pode dar alguma satisfação para a frustração contínua que emerge da nossa relação com as coisas.


No entanto, se se consegue convencer a muitos que as dores são causadas não pela relação com essa realidade transitória, mas sim pelos pais, pelas famílias, pela Igreja, pela nação, classe, raça, ordem política qualquer, encontra-se uma força de mobilização e organização tremenda, norteada por uma sede desfocada de vingança.


Uma vingança que, evidentemente, nunca será realizada, por mais que se matem pessoas.

Porque o que causa aquele ressentimento não está no alvo que os manipuladores dizem ser a origem da dor. A fonte da dor não está no outro, mas sim em nós e em nossa negação da realidade do mundo.


A dita Revolução Russa foi fundada num pântano de ressentimentos profundos. E ela mostrou como esse sentimento pode ser manipulado e, principalmente, como ele pode ser utilizado para levar um grupo de manipuladores políticos ao poder.


Tudo no movimento de 1917 foi movido pela necessidade de reparar algum tipo de sofrimento social causado por outros: o Tzar, os nobres, os industriais, os banqueiros. Em alguns momentos os judeus, em alguns outros momentos os americanos, ingleses, alemães, chineses e assim sucessivamente.


É evidente que esse tipo de ordem política é eficiente, por conta de seu apelo afetivo.


Mas é uma eficiência circunstancial, porque por mais que se busquem os culpados de nossas dores nos outros, em alguma outra pessoa, ou em alguma classe ou o que for, nunca as razões dessa dor serão realmente superadas, enquanto os que buscam não se derem conta de que viver nesse mundo exige conviver com essa dor.


E que tal dor tem a ver com a natureza da existência e com a natureza transitória do mundo. E com as dificuldades dos seres humanos em lidar com essa realidade e com o que são: seres mortais.


A solução está não numa transformação impossível da realidade do mundo. Mas sim no voltar-se para o espírito, para aquela dimensão que pode nos permitir transcender o sofrimento. Está na percepção da fragilidade essencial dos homens, a nossa e daqueles que nos ofendem.


Esse aspecto da questão deve ser colocado, porque a política do ressentimento sempre é, em algum momento, política fracassada. Porque, repetimos, é a realidade do mundo que condiciona e estabelece os fundamentos de nosso sofrimento, e não o outro, uma classe, ou uma raça.

Por isso, o regime instalado em 1917 já estava, desde o princípio, condenado ao colapso e ao desaparecimento. Porque também faz parte da realidade a crise contínua das ideias humanas de controle de um mundo que é incontrolável.


Em 1993, o Soviete Supremo, instituição que controlava a política russa desde 1936, foi dissolvido por uma ação violenta, militar. A sociedade não o defendeu e, na verdade, sentiu-se aliviada pelo seu desaparecimento.


Assim, diferente do que afirmavam os líderes soviéticos, não é a política o melhor meio para lidar com o nosso ressentimento.


Ao contrário, como a política não resolve jamais os problemas relativos à natureza das coisas, ela se torna, quando assume essa pretensão, destruidora dos caminhos que podem permitir a superação da nossa dor.


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